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Hora do Café
 

Ivan Pavlov - A verdadeira história

Todo mundo já ouviu falar de Pavlov, o cara do reflexo condicionado.
Lembro-me das aulas de Psicologia no colégio, quando a gente não podia nem ouvir falar no nome do Pavlov que já salivava... de raiva!

Ivan Pavlov

Mas o que pouca gente sabe, e nunca procurou saber, é como o futebol, a vingança, a impaciência e a religião operaram a favor da ciência, fazendo brotar em Pavlov a semente da pesquisa que o tornaria reconhecido no mundo inteiro.
Para nos inteirarmos dos fatos, e não ficarmos mais metadeando neste assunto, faremos uma pequena viagem no tempo e no espaço:
Estamos na pacata Ryazan, na Rússia dos czares (seria das czarinas também, mas eles, muito machistas, não czeram...). O ano, 1858. Peter Dmitrievich Pavlov, um severo pastor religioso, alimentava esperanças de que seu filho, o pequeno Ivan Petrovich Pavlov, então com 9 anos, seguisse seus passos no pastoreio (e às vezes até ordenha) de almas, sem saber que o destino faria o pequeno Ivanzinho muito mais útil à ciência do que à pecuária espiritual.
A vidinha do pequeno Ivanzinho corria e brincava tranqüila na pacata Ryazan, até que, naquele dia, depois das aulas, o destino deu o pontapé inicial em sua carreira de cientista. O pequeno Ivanzinho jogava futebol com seus colegas, usando contente sua nova camisa do Spartak e, numa discussão sobre as leis imperiais do impedimento, acabou trocando sopapos e pontapés com seu amiguinho Yury Belotserkovsky, e acabaram os dois indo esfolados para suas casas. Yury Belotserkovsky, diga-se de passagem, muito mais esfolado do que o pequeno Ivanzinho, que era pequeno, como já disse, porém, bem maior que Yury Belotserkovsky.

Russos jogando futebol, numa gravura da Idade Média, o que comprova que todas as informações que temos são falsas, portanto, vamos teorizar!

Acontece que Yury Belotserkovsky era um sujeito pequeno também no caráter, além de vingativo e cruel (mais tarde teria um cargo importante na ditadura Stalinista, mas essa é outra história), e resolveu descontar a surra que levou, aporrinhando a vidinha do pequeno Ivanzinho. Teve então a idéia de ir até a casa do severo pastor Peter Dmitrievich Pavlov, tocar a campainha e depois se esconder.
Parece uma vingancinha boba e infantil essa, não parece? A não ser pelo fato de Yury Belotserkovsky estar decidido a fazer isso por cinco anos seguidos...
Naquela tarde, o pequeno Ivanzinho estava dando de comer ao seu cãozinho Charnushkyn (que ao contrário de seu pai, não era um pastor, e muito menos severo), quando alguém tocou a campainha...
TRIIIIIIMMMMMMSK!!!... Yury Belotserkovsky começara sua vingança.
A mãe do pequeno Ivanzinho, dona Varvara Ivanovna, lavava roupas no tanque e, não podendo parar, ordenou ao pequeno Ivanzinho que atendesse a porta. O pequeno Ivanzinho, então, deu uma rosquinha para seu cãozinho Charnushkyn e foi ver quem era:
- Não tem ninguém, mamushka! - e voltou a alimentar seu cãozinho Charnushkyn, que esperava ansioso, salivando e abanando o rabinho.
Yury Belotserkovsky prosseguia em seu qüinqüenal plano diabólico, e alguns minutos depois:
TRIIIIIIMMMMMMSK!!! - de novo a campainha!
- Vanyaaa! (Ivanzinhooo!), atende essa merdyna! - gritou nervosa lá dos fundos sua mãe, dona Varvara Ivanovna, esfregando as roupas no tanque.
E o pequeno Ivanzinho, com toda a paciência que a ciência um dia lhe exigiria, deu mais uma rosquinha para seu cãozinho Charnushkyn, levantou-se e foi correndo até a porta, mas nada viu, e também não percebeu os movimentos provocados nos arbustos pelo riso cruel e contido do esfolado Yury Belotserkovsky...
- Sputa Merdyna! - vociferou o pequeno Ivanzinho, ao ver que ninguém via, e voltou para seu cãozinho Charnushkyn que pedia mais, salivando abundantemente quando o pequeno Ivanzinho lhe mostrava a rosquinha (por favor, eram tempos mais inocentes, aqueles...).
E assim foi a tarde toda. Yury Belotserkovsky, implacável, tocava a campainha:
TRIIIIIIMMMMMMSK!!! E a mãe do pequeno Ivanzinho, dona Varvara Ivanovna, gritava, esfregando a roupa, e o cãozinho Charnushkyn salivava e o pequeno Ivanzinho levantava-se, corria a abrir a porta e nada via... Um saco!
No final da tarde, Yuri Belotserkovsky, já cansado, resolveu dar uma paradinha na vingança e poupar seus dedos para o dia seguinte. Nisso, chegava em casa o severo pastor religioso Peter Dmitrievich Pavlov, depois de dar o culto a tarde toda e, percebendo que esquecera sua chave na igreja, tocou a campainha:
TRIIIIIIMMMMMMSK!!! - Olhou pela janela e viu, chocado, a cena: O pequeno Ivanzinho correndo pra lá e pra cá, seu cãozinho Charnushkin salivando, babando como um cão doido e Dona Varvara Ivanovna agitando os braços, gritando palavras horrorosas...
Aos seus olhos severos de pastor severo, todos pareciam possuídos pelo demônio, e então, arrombando a porta aos pontapés, de olhos arregalados, Bíblia na mão, entrou furioso, chutando o cãozinho Charnushkyn e estapeando violentamente a esposa, Dona Varvara Ivanovna, derrubando móveis e gritando:
- FORA, SATANÁS! VADE RETROVSKY! FORAAA!!! - e dá-lhe chutes e tapas pra todo lado...
O pequeno Ivanzinho, com seu precoce raciocínio científico, concluiu então que seu próprio pai, o severo pastor religioso Peter Dmitrievich Pavlov, tocara a campainha de sua própria casa a tarde toda, e agora, completamente possuído pelo demônio, entrava para aniquilar sua família! Enlouquecera totalmente! O pequeno Ivanzinho tentou defender seu cãozinho Charnushkyn e sua mãe, dona Varvara Ivanovna da fúria religiosa do severo pastor Peter Dmitrievich Pavlov, pulando em seu pescoço, dando-lhe socos na cabeça, enquanto seu baboso cãozinho Charnushkyn atacava-lhe as canelas... Um autêntico bafafá ao som da balalaika!
Os vizinhos acudiram, levaram umas porradas e deram outras, mas conseguiram finalmente separar a endemoniada família Pavlov.
Mesmo depois de tudo mais ou menos esclarecido, o pequeno Ivanzinho jamais voltou a olhar seu pai, o severo pastor religioso Peter Dmitrievich Pavlov, como antes. Tornou-se um menino retraído, passava horas e horas com seu cãozinho Charnushkyn, tentando entender o ocorrido e, principalmente, os motivos de seu cãozinho Charnushkyn babar tanto, sempre que ouvia uma campainha...
E mesmo tempos depois, já na Faculdade, quando alguém lhe perguntava sobre isso, o pequeno, traumatizado e envergonhado Ivanzinho respondia:
- É sim! Ele tá condicionado. Condicionado, entendeu???... - e aí, começou a inventar toda uma teoria, para esconder a verdade daquele dia fatídico na sua pacata Ryazan.
Daí pra ganhar o Prêmio Nobel em 1904 foi um pulo.

O grande Ivan Pavlov demonstra sua teoria do Reflexo Condicionado a estudantes de fisiologia. E comprova que o bicho não é bobo. Está só condicionado...

Queria agradecer a participação das teclas Ctrl+C e Ctrl+V, porque sem elas esse texto não seria possível (tente digitar esses nomes russos duas vezes sem errar, hehehe...).



 Escrito por Zé do Café às 16h32 [] [envie esta mensagem]