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O Homem que atraía malucos IV - O atravessador
Quinto dia útil do mês. Dia de pagamento dos servidores aposentados do Estado num banco aqui perto. Eles esperam por esse dia com muita ansiedade, não só pelo dinheirinho minguado que recebem como indenização pela vida servida, mas também porque nesse dia saem de casa, encontram os antigos colegas e conversam na fila, reclamam da fila e também da saúde, do frio, do calor, do governo, do IPTU, do condomínio, dos filhos, das noras, dos genros, dos netos, dos vizinhos, dos cachorros... Enfim, é pura diversão! A rua, que normalmente tem um bom movimento, parece ganhar uma espécie de nevasca, lembrando telhadinhos europeus de cartões de Natal, tantas as cabecinhas brancas a transitar pelas calçadas. Colaboram com o movimento as ciganas pedintes com suas crianças melequentas e seus bués, e também os picaretas inescrupulosos e os marreteiros que aproveitam o dia de pagamento para seduzir as velhinhas com suas bugigangas inúteis, assinaturas de revistas, conjuntos de panelas, despertadores de pilha, brinquedos de corda, cestos de roupas, colheres de pau, meias de nylon, pomadas de arnica, ímãs de geladeira, panos de prato, gorros de lã... Todos querendo faturar uma graninha. Neste cenário estava eu, esperando para atravessar a rua, quando percebi uma senhorinha ao meu lado, fingindo olhar os carros partindo do sinal aberto e passando rápidos por nós, mas percebi também que a idéia dela era me usar como guia, ou, na pior das hipóteses, como um escudo para atravessar a rua. Olhei para a velhinha e, com um semblante gentil, dei meu braço direito pra ela segurar e disse: - Vamos? Eu atravesso a senhora... A velhinha afastou a cabeça pra me olhar melhor, com aqueles óculos grossos e desconfiados, deu de ombros assim como quem entrega nas mãos de Deus, sorriu e segurou no meu braço. O sinal fechou e lá fomos os dois, atravessando lentamente a rua, eu com uma cara de bobo e ela com uma de desconfiada, apertando a bolsa contra o peito, mas agradecida: - Muito gentil, moço! Muito gentil! Aqui é tão perigoso, eles viram essa esquina numa velocidade! - Ah, imagina, não custa nada... Aqui é melhor ter cuidado, mesmo! Quando chegávamos al otro lado, uma segunda velhinha (que passaremos a chamar de velhinha 2), de braço dado com uma outra velhinha, mais baixinha (a velhinha 3), nos olhava, ali parada na calçada, e disse: - Ah, se você atravessou ela, vai nos levar também, não vai??? Hi, hi, hi... As duas riram se entreolhando. A cena era boa: Eu, ainda de braço dado com a velhinha 1, naquele passo de noivos saindo da igreja, ela me puxando firme para baixo, procurando com o bico do sapato a altura da guia e eu dirigindo os trabalhos, guindasteando a idosa pelo braço: - Aêêê! Mais pra cima... Muito bem! Hehehe... Olhei para a velhinha 2, que me parecia ser mais velhinha que a velhinha 1, porém mais espertinha e falei: - Pera aí que vou descarregar ali e já venho buscar as senhoras! Hehehe... Deixei a velhinha 1 na calçada me agradecendo com um Deus lhe pague e me virei para as velhinhas 2 e 3, que me aguardavam sorripróteses e ansiosas. - Vamos lá? - dei o braço direito para a velhinha 2, e a velhinha 3 já veio se atracando firme no esquerdo. E assim ficamos esperando o sinal fechar. Pela força que me seguravam nos braços, senti que não seria fácil... O sinal fechou e lá fomos nós. Eu, de volta ao meu ponto de partida, meio curvado e agora duplamente carregado, e as velhinhas 2 e 3, cada uma me pendendo para um lado, alternadamente a cada passo. Me senti uma autêntica mula boliviana sobrecarregada subindo uma encosta. Somente aí notei que a velhinha 3 mancava da perna esquerda, o que fazia o cambaleante trio mais cambaleante ainda. Pensei se não seria mais rápido e produtivo levantar as duas e atravessar a rua correndo, mas isso exigiria mais bíceps e, com certeza, um bom treino anterior... A velhinha 2 falou alguma coisa e eu sorri, concordando, sem entender, pois minha atenção estava toda voltada para os carros e ônibus que poderiam a qualquer momento virar a esquina e nos fazer um strike. A velhinha 3 não parava de rir e eu comecei a achar que naquele momento só eu não estava rindo naquela rua... Muitas coisas me vieram à mente, como: Será que alguém conhecido está me vendo? Seria isso uma pegadinha? Serão essas velhinhas duas malucas? Seriam as duas uma mini-quadrilha de punguistas? Por via das dúvidas conferi minha carteira no bolso traseiro da calça (nesses tempos corruPTos, ando desconfiando de todo mundo, hehehe!). Meus pensamentos foram interrompidos pela aparição repentina do monstruoso 875-P, Ana Rosa, que fez a curva sem reduzir e, bufando feito um touro, nos fez apertar o passo e o descompasso... Juro ter ouvido nessa hora alguns aplausos vindos do bar, mas fiz que não ouvi. Finalmente a calçada. Ufa!... Sãos e salvos! Elas me soltaram e aproveitei para arrumar a gola da camiseta, que já mostrava parte do meu ombro esquerdo. A velhinha 2, toda agradecida, passou a mão no meu rosto, falou um muito obrigada, abriu a bolsinha de zíper que carregava e dela tirou uma balinha de caramelo, que colocou na minha mão. - Ah, não precisa... - eu dizia, enquanto a velhinha 3 imitava o gesto da amiga abrindo também sua bolsa e colocando uma outra balinha, de hortelã, na minha mão ainda aberta. - Deus lhe pague! - disse a velhinha 3. E se foram, as velhinhas 2 e 3, rindo e cambaleando com suas próprias pernas em direção ao banco. Ainda me recompunha e olhava as duas se afastando quando senti uma mão no meu ombro, batendo pesada: -Aí, Zé!!! Faturando uma graninha aí, hein??? Quanto tá cobrando pra atravessar as velhinhas? Hahaha... -Vai à merda, Chico! - eu disse, mostrando as balinhas na mão - Quer caramelo ou hortelã? E fomos tomar um café na padaria.

De uma cena boba pode nascer um ótimo negócio... Tanto que, enquanto tomávamos o café, pensamos em reativar um antigo serviço do tempo do Império. Acho que dá até pra ganhar um bom dinheiro... Hehehe!
Escrito por Zé do Café às 02h33
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Perdido nos Espaços
Bom, chegamos! Mais uma vez peço desculpas pela ausência, mas agora não houve seqüestros nem STL (Síndromes da Terceira Linha). Nem muito menos falta de espaço. Estava viajando por aí, com uma galera superespe(a)cial que conheci. Tivemos uns probleminhas na partida e depois ainda tivemos que trocar um pneuzinho, o que nos forçou a uma EVA (extravehicular activity). Ia postar alguma coisa de lá, mas os caras insistiam em usar o computador de bordo pra falar com um tal de Houston, não sei o porquê! Mas conseguimos chegar sãos e salvos. Agora é colocar as coisas em dia, inclusive a Hora do Café. Aguardem!

Na foto, um flagrante de EVAA (Extravehicular Ass Activity). Um amigo usa seus retrofoguetes para se aproximar e fazer uma análise mais profunda dos estragos. Assim que chegamos, fomos a um borracheiro fazer um reparo... No amigo.
Escrito por Zé do Café às 13h02
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